quinta-feira, 20 de julho de 2017

O estoque - parte 2

Uma pilha de livros pegando poeira. Árvores cortadas, poluição despejada na atmosfera, litros e litros de tinta para imprimir essa bagaça toda. Sim, os livros ainda estão acumulados (se você não sabe do que estou falando, clique aqui e leia desde o início). Ontem eu notei que a pilha havia diminuído. Contabilizei as vendas da última semana e confirmei que os números não estavam batendo.


  Mexeu aqui?, perguntei para a esposa.
Não mexo nas suas coisas.
Sumiram uns livros. A Graça não mexeu?
Ela só vem na outra semana.

Voltei ao quarto e refiz as contas. De fato, faltavam alguns exemplares. Como eu já estava quase atrasado para o trabalho, peguei um livro do Borges na prateleira e fui.

O trânsito engarrafou perto da rodoviária. Aproveitei para abrir o livro. Antes que me perguntem: sim, eu leio no trânsito e não é só no ônibus ou no metrô. Leio no carro também, dirigindo, quando começa aquele para-e-anda de cidade grande. É uma habilidade quase mística, longos anos de prática. Em meu favor, nunca matei ninguém. Uma batidinha de leve em um taxi certa vez, mas a estatística está do meu lado. Fui ler Borges, uma mão no volante, a outra escorando o livro. Notei algo estranho no texto. No conto “O Aleph”, em meio às visões do protagonista, percebo trechos de Chame Como Quiser:

"Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto roto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando-me como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, a música constante. O som, todo o tipo de som se converte na maldita canção. O canto de uma cigarra e o uivo de um cão. Aquele pássaro que entrou pela janela. Talvez você não entenda. Olhe o tempo lá fora: está sol, mas se chove, o gotejar invade meus ouvidos e transforma a batida da água contra as telhas na melodia tortuosa que não consigo deixar de ouvir. E não pense que o problema é o telhado. A chuva contra a grama, contra a copa das árvores. O vento. O vento sacudindo as folhas, os móveis que os empregados arrastam. Seu pulso, esse relógio, as perfeitas engrenagens em harmonia. Se aproximo meus ouvidos. Não. Eu não ouso. vi num pátio da rua Soler as mesmas lajotas que, há trinta anos, vi no vestíbulo de uma casa em Fray Bentos, vi cachos de uva, neve, tabaco, veios de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia,  vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um câncer no peito, vi um círculo de terra seca numa calçada onde antes existira uma árvore, vi uma chácara de Adrogué, um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemon Holland (...)"

O absurdo era evidente, mas o trânsito avançou e eu não pude ler o restante. Já com o carro estacionado, continuei a folhear o livro e vi que não era só “O Aleph” que estava adulterado. Partes do conto “Máscaras” se embolavam à narrativa de “Tlon, Uqbar, Orbis Tertius” e no “Jardim das veredas que se bifurcam”, trechos de “O assassino”. Fui trabalhar, atrasado. Passei o dia com a cabeça naquela hipótese absurda.

Corri para casa no final do dia, direto para estante dos livros. Antes, recontei a pilha: 5 exemplares a menos do que na contagem da manhã. Fui retirando os exemplares das prateleiras e conferindo o conteúdo. Notei que “Cidades Invisíveis” estava um pouco mais pesado que de costume. Abri e vi “O Jardim” inserido na cidade de Teodora. Adiante, em “Grande Sertão: veredas”, trechos de “Belinha”; em o Processo, partes de “Multiplicai” apareciam em meio ao labirinto de Joseph K.

Passei a noite remendando livros, recortando os trechos inseridos indevidamente em outras obras e recompondo os exemplares que haviam se diluído pelos outros da estante. Ao final do trabalho, encaixotei todos os “Chame Como Quiser” e movi as caixas de lugar. Torço para que permaneçam ali, comportados. Aliás, você pode ajudar. Leve um exemplar para sua casa e reduza meu risco. R$40, já com o frete. Só não posso garantir que ele não irá se misturar aos seus outros títulos. Compre e assuma o risco. Interessado? Mensagem para andersonhgo@gmail.com

Máscaras, um dos contos do livro que ainda não se misturou com nada da internet. Dá para ler aqui: https://drive.google.com/file/d/0BytazVLuRyH9dEs1a3V0d2FSclU/view

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Pretérito Imperfeito – Gustavo Araujo

Em uma entrevista para o jornal El País em 2015, Harold Bloom foi categórico: não há nada de radicalmente novo na literatura. Não é uma afirmação surpreendente, considerando o autor da citação, mas será verdade? Então tudo já foi feito e só resta a repetição? Nada além de Prost, Kafka ou Beckett, só para citar autores admirados por Bloom?

Eu não sabia o que esperar quando peguei o livro de Gustavo Araujo para ler. Conheço o autor através do Entrecontos, site para escritores e leitores que o ele administra. Eu havia acabado de lançar meu segundo livro e já estava interessado em ler um trabalho maior do Gustavo há algum tempo, motivado pela qualidade dos contos dele que li. Fiz o que muitos escritores fazem: perguntei se ele não gostaria de fazer uma permuta. Eu enviaria um exemplar de Chame Como Quiser e ele me encaminharia uma cópia de Pretérito Imperfeito. É uma maneira de fazer o trabalho circular e de apreciar o que nossos contemporâneos estão produzindo. Além de “economizar” uma grana.

Recebi o livro quase uma semana depois do trato. Comecei a leitura no saguão do aeroporto a caminho de São Paulo, voo cancelado e remarcado para mais de uma hora depois do horário original. Tirando o prólogo, que achei de uma beleza cativante, as primeiras páginas me fizeram ter a sensação de estar pisando em terreno conhecido. De fato, o livro de Gustavo tem aquela pegada ágil que força o leitor a virar uma página atrás da outra. Os elementos estão bem encaixados, os personagens são carismáticos e trama vai ganhando corpo conforme a progressão. Li umas 60 páginas até chamarem para o voo. Tão distraído que estava com a narrativa, nem vi que a Fernanda Lima sentada ao meu lado (só fui perceber quando algumas pessoas vieram tirar fotos com ela).

Conhecemos o protagonista no primeiro capítulo, um jovem de 13 anos que tem dificuldades com a leitura. O livro parte justamente do dia em que ele pretende dar um novo rumo à sua relação com a leitura. A noite anterior em frente ao livro seria sua garantia. Leria o trecho escolhido pela professora de maneira fluente e sem gaguejar. Ele começa bem, mas um de seus colegas atrapalha (intencionalmente) sua leitura e tira Toninho do rumo. A conclusão é desastrosa. No capítulo seguinte, o livro se utiliza do formato epistolar, uma carta de Cecília para uma amiga chamada Carol. Cecília também tem 13 anos e é mostrada como uma adolescente interessada pelos livros e pela música. Há também uma pincelada de sua relação com o pai na primeira carta. O livro segue alternando entre Toninho e de Cecília, esta última sempre através das cartas que ela escreve para a amiga Carol. Conhecemos a vida simples do Toninho, seu interesse pelos pássaros, a perda da mãe e o relacionamento distante que tem com o pai. Do lado de Cecília, um mistério: a menina desconfia que algo perigoso ou estranho está acontecendo com seu pai.

O livro de Gustavo é, de fato, um romance de formação, contemporâneo na linguagem e versátil por se apoiar em mais de uma estrutura narrativa durante suas 280 páginas. Há espaço até para a inserção de um conto no meio do livro, fruto da imaginação de Cecília, que tem desejo de ser escritora. É um conto singelo, que faz a trama girar e não está ali gratuitamente. Há uma conexão justíssima do texto com a relação entre Cecília e Toninho. Há também um pano de fundo histórico, uma visita à época da ditadura militar e suas figuras históricas que tem interferência direta na vida dos adolescentes. Tais trechos trazem as partes mais tensas do livro, quando o romance toma ares de suspense e agarra o leitor por páginas e páginas.

Nada no livro de Gustavo é por acaso. No fim, todas as peças se encaixam com convicção. Há espaço até mesmo para uma intervenção do fantástico na trama. Ler Pretérito Imperfeito foi como voltar a um local importante da infância, um terreno conhecido que traz algo novo porque se trata de uma visita feita anos depois. O tempo é implacável: tudo é familiar, mas a configuração já não é mais a mesma. Pretérito Imperfeito junta com maestria muito do que já foi feito: os personagens infantis cativantes, as subtramas, o contexto político, a tensão da resolução de um mistério e as relações familiares. Tudo revisitado, reformulado e com novas tintas. Voltamos então a Harold Bloom. Eu me diverti e me emocionei com Pretérito Imperfeito de uma maneira que não acontecia com muitos livros supostamente experimentais. “Não há nada radicalmente novo na literatura”. Talvez não seja necessário. Ou, pelo menos, obrigatório.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

O estoque

Uma pilha de livros pegando poeira. Árvores cortadas, poluição despejada na atmosfera, litros e litros de tinta pra imprimir essa bagaça toda. E a culpa? Sua, tímido leitor, preguiçoso leitor, avarento e fugidiço leitor que ainda nl.com.
ão veio pedir seu exemplar. E como faz? Moleza: 40tão na conta do tio e eu mando pra qualquer canto do país. O sistema de entregas é rápido e eficiente, chega junto com sua pizza de sábado à noite. Partiu comprar livro? Mensagem pra andersonhgo@gmai
E se você ainda não tá convencido que Chame Como Quiser é porrada, tá aí a opinião de quem já leu e assinou a quarta capa:
“Um exemplar a ser roído por espantalhos, bêbados e insones ao som de uma mandolinata inenarrável.” – Matos de Carvalho, aforista
“Um mergulho no território do fantástico a Rubião e Kafka. O absurdo puro e simples. Por vezes, apenas o cotidiano.” – García Vásquez, escritor
“Personagens provocantes e perspectivas pitorescas. Pungente, particular e perspicaz.” – Paula. P. Pimenta, paisagista
“Este autor não é confiável. Usa máscaras, tem duplos. Inúmeros irmãos imaginários. É imaginação de sobra. E a gente que leia nas entrelinhas. Que chame como quiser o que ele faz. Na sombra. No disfarce. Nas manobras. Dobras e desdobramentos. Cuidado. Anderson Henrique é o nome deste contista. Dos bons. E você, leitor(a), a vítima. Que sorte!” – Marcelino Freire, autor de Nossos Ossos e Contos Negreiros
Tá durão, faltando grana? Sem crise. Aqui tem literatura barata, amostra grátis, a borrifada que a mocinha da loja de perfumes dá sem você pedir. Vê aí, Máscaras, um dos contos do livro. Totalmente livre de impostos. Free! Fria? Vem ler!

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Extremamente alto, incrivelmente perto

"Quando eu tinha a sua idade, seu avô me comprou um bracelete de rubi. Era grande demais pra mim e ficava escorregando para cima e para baixo no meu braço. Era quase um colar. Mais tarde ele me contou que havia pedido ao joalheiro para fazer daquele jeito. Era para o tamanho ser um um símbolo do seu amor. Mais rubis, mais amor. Mas eu não podia podia usá-lo com conforto. Não podia usá-lo de maneira alguma. Então aqui está a essência do tudo que venho tentando dizer. Se eu fosse dar a você um bracelete, agora, eu tiraria a medida de seu pulso duas vezes."

Trecho do livro Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, do Jonathan Safran Foer. 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Cão - Rui Xavier

"Porque a publicidade de si mesmo virou esse mel divino pelo qual todo mundo se esfalfa, porque eu sou dessa geração obcecada pela celebridade e porque mesmo o sujeito com a mais evidente vocação de nota de rodapé não se enxerga assim – eu sou publicitária, eu sei; coloque o mínimo de recursos na mão de um medíocre e ele acha que é um cristo. Até porque preferimos esquecer que é possível ser celebremente odiado, celebremente ridículo, é como se a celebridade fosse um estado de amor universal, o que não pode ser mais falso.
(...)
Eu acho que a melhor imagem para nossa sociedade é a de uma multidão se espremendo, cada pessoa em guerra franca com a outra, na plataforma de uma estação de metrô, no momento em que as portas se abrem, na hora em que os cotovelos enlouquecem.
(...)
Eu sou quem eu sou! Essa ilusão de que você pode mudar uma pessoa, de que você pode se mudar para se adequar a uma pessoa, isso é a pior cagada. É aí que tudo dá errado. As pessoas tinham que se juntar só quando elas tivessem esse amor tão profundo a ponto de envolver de carinho e tolerância até aquilo que se percebe no outro como defeito."

terça-feira, 30 de maio de 2017

Nunca pretendi concorrer com as sandálias havaianas - Jamil Snege

Jamil,

faz pouco mais de uma semana que ouvi o nome Snege pela primeira vez. E foi assim que o reproduzi: Snegue, com se houvesse o ú entre o gê e o é. Fui prontamente repreendido por quem o apresentou a mim. Snege, o Marcelino disse (esse mesmo, o Freire). Jamil Snege, ele repetiu. Anotei em um caderno e fui pesquisar. Minha primeira surpresa foi perceber que não havia um único texto de sua autoria na internet. Sim Jamil, hoje em dia as coisas são desse jeito. Se não está na internet, é como não existisse. É uma sandice, mas foi o caminho que a tecnologia traçou, espelhando a vida como se fosse maior que ela. Encontrei, contudo, uma série de artigos que relacionavam seu nome. O Turco, lhe chamavam. As matérias eram todas elogiosas, sempre mencionando seu talento e irreverência, o que acabou chamando minha atenção. Fiquei curioso para ler seu trabalho, mas onde estava o material? Perdoe minha desconfiança, mas se há algo que merece suspeita, é o elogio (você precisa ver o que andam enaltecendo hoje em dia). Depois de muito pesquisar — o que nos termos atuais, corresponde a mais ou menos uns trinta minutos — encontrei finalmente uma poesia sua. Li algumas vezes e achei impressionante, mas ainda era pouco. 11 livros e nem um único PDF pirata na internet, nem mesmo a página escaneada de um livro? Por fim, acabei entendendo: Jamil Snege foi desses artistas que andam pela contramão. Fugiu das grandes editoras e fez arte por conta própria. Publicou seus livros em pequenas tiragens, o que hoje chamariam de autor independente, a mão do artista em cada etapa do processo. Em princípio, achei que a sua opção fosse meramente um contraponto ao mercado editorial, um caminho tomado por alguns autores da atualidade. Aprofundando minha leitura nos recortes de sua biografia, percebi que sua opção foi tão artística quanto contestadora. Explique-me como um publicitário brilhante se recusava a divulgar seu próprio trabalho literário? Casa de ferreiro, espeto de pau, é isso? Clichê dos clichês? Foi o que pensei em primeiro momento, mas olhando um pouco para dentro notei que a questão me parecia um tanto familiar. Cabe aqui uma explicação, Jamil: eu também tenho um livro publicado. Chama-se Anelisa Sangrava Flores e é meu primeiro trabalho. Saiu por uma editora pequena e vendeu bem pouco. Não vou falar de números para não deixar ninguém constrangido (eu, principalmente). Digamos que tenha vendido bem menos do que minha ingenuidade havia projetado e um pouco mais do merecia ter vendido. Publicado há uns dois anos e, passadas as etapas iniciais, esbarrei na barreira seguinte: a divulgação. Na vida do autor de hoje, excetuando aqueles publicados por grandes casas, cabe um pouco de tudo. Revisor, editor, malabarista de sinal, psicólogo, cientista político, celebridade de Facebook, agitador cultural e artista no Youtube. Escrever, não basta. Contei tudo isso para chegar no seguinte ponto: eu tenho uma puta dificuldade em divulgar meu trabalho. Adoro falar de literatura e falo com entusiasmo de meus autores prediletos. Nas redes sociais, faço questão de divulgar colegas que começaram a publicar ou que estão fazendo um trabalho bacana, mas quando é comigo a coisa não vai. Não é fácil quando o discurso está na primeira pessoa, não é mesmo? Fico me perguntando se é algo que também acontecia com você. Parece que é mais difícil pedir algo para si que para os outros. Soa um tanto como farsa. Veja que curioso: estou participando de um curso para escritores e desde o início tenho a vontade de comentar com os colegas sobre esse meu primeiro trabalho. Talvez se interessem, talvez o título pareça instigante. Mas coragem, nada. Vender é um saco, né? Uma frase sua ecoa em minha consciência e talvez tenha relação com o assunto: nunca pretendi concorrer com as sandálias havaianas.

Ah, Jamil, há tanto o que falar. Escolha a pauta. No campo da fantasia, ninguém publica um único volume. As histórias saem, no mínimo, em trilogias. E quando não há mais o que se dizer, volta-se ao passado dos protagonistas. Ou conta-se a mesma história a partir de outra perspectiva. E na internet? Há blogs, vlogs e booktubers. Não é incomum encontrar leitores que afirmam terem lido 20 ou 30 livros em um único mês. Já ouviu falar em bookhaul? Em bookshelf tour? Pois é, se antes o livro era sinônimo de status social, agora é alvo de fetiche. Gostaria muito de lhe dizer que nosso mercado editorial já evoluiu, que nossas grandes editoras não vivem mais das compras do governo e que o livro já deixou de ser artigo de luxo. Mas não, ainda não. Onde estão os livros baratíssimos, em papel de jornal, sem orelha, pequenos e de material reciclável? Por aqui parece haver uma preferência pela capa dura, o couro, tamanho e volumes suntuosos que custam pequenas fortunas. E o que dizer da publicação de biografias de adolescentes que saem aos montes e daquele livro que é a romantização de um filme baseado em um quadrinho. A postura das grandes editoras continua a mesma, o modelo que há anos não funciona. Parece que tem algo errado, não é? E olha que nem falei sobre o debate do livro com preço único. No mercado tem banana ouro, prata e d’água? Parece que conseguiram, o livro é, mais que nunca, um produto.

Para encerrar, queria voltar ao assunto dos seus livros, Jamil. Contei sobre a dificuldade de encontrar algo de sua autoria na internet, mas acabei não falando de como foi difícil encontrar um livro seu nas livrarias. Fui achar um exemplar apenas em um sebo de Curitiba. Paguei 66 reais em uma cópia de Viver é prejudicial à saúde. Um livro antigo e amarelado pelo tempo, de 77 páginas. Edição do autor, dizia a folha de rosto. É claro que comprei. Pela internet encontrei outro exemplar custando 300 reais. Estava autografado por você. O valor das coisas na terra depende do quanto elas se repetem. Veja que curioso: foi justamente a postura editorial do autor que fez o Jamil raro. Até pouco tempo seus herdeiros não haviam chegado a um consenso sobre a reimpressão de suas obras e como o resultado, ficamos 10 anos sem uma única republicação do Snege. Li que finalmente chegaram a um acordo e sua obra estará voltando ao mercado.

Fico por aqui, Jamil. Vou encerrar com um trecho de Viver é prejudicial à saúde. Lembra daquela história de compartilhar e divulgar o bom da música, da arte e da literatura? Vamos a ela:

“A vida é muito estranha. Já gastei a minha cota de mulheres, já amei e desamei, fui amado e desamado, mas de repente um arroubo juvenil brota lá dentro e eu me sinto tolo, núbil e apaixonado. Por nenhuma mulher em particular, mas por qualquer mulher — contanto que me olhe com uns olhos redondos de ternura, me fale com uma voz macia, pergunte se dormi bem, se me alimentei, se senti falta dela. Arroubos. Sou um sujeito totalmente à margem do mercado amoroso ou sexual. Uma carreira profissional estagnada, uma aparência física que não é das melhores, o desencanto da idade, a indiferença do mundo. Cultivo hábitos antissociais e saberes inúteis. Sou capaz de discorrer sobre um monte de bobagens, identifico árvores, pássaros, minérios. Cozinho razoavelmente. Consigo discutir durante cinco minutos com especialistas de qualquer área. No minuto seguinte constato que não me especializei em nenhuma delas. Li os clássicos, ouvi os clássicos, cito em mau latim, nada sei de grego. De tanto ouvir sobre viagens internacionais, viajei todo o mundo sem ter ido à parte alguma. E as vezes que fui, acabei não indo: não encontrei o túmulo do herói, o café dos impressionistas, a casa onde morreu Balzac, a nascente do Nilo. Peguei o trem que não devia, o avião antecipado, o hotel do lado oposto, fui ao bar que já havia fechado. A mulher que amaria, já havia partido, o irmão prometido morreu na guerra da Criméia, o amigo desejado ficou retido em Istambul, um furacão, uma avalanche, uma súbita queda de temperatura, uma mudança do fuso horário, um porre, um mal-estar passageiro, uma diferença de caixa, a falta de um terno novo, o medo de se arriscar, não ouvir um conselho, ouvir um conselho, descartar um par de nove, insistir num casamento, alegar indisposição, simular um orgasmo — e aqui vou eu numa estrada de Cintra ou Arizona, eu e minha circunstancia do imutável: existo — não sou.”

Ass: Anderson Henrique

A carta foi escrita em 8 de abril de 2016. Um dos exercícios do curso de escrita TOCA do Marcelino Freire. Recomendo a todos. 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Entrecontos - Anelisa Sangrava Flores


"Anderson Henrique faz uma aposta ousada em Anelisa sangrava flores. Num mercado literário dominado por narrativas fantasiosas que replicam os best-sellers americanos, com seus aliens, duendes, games e mundo paralelos, Anderson procura o dia a dia, o mundano, o simples, o trivial. Não é o oposto, como se poderia pensar, uma espécie de antinomia em relação ao que se vê nas prateleiras de lançamentos de qualquer loja. Na verdade, é algo que vai além e que se destaca exatamente por utilizar elementos do cotidiano para transportar o leitor para um ambiente rico, criativo e essencialmente comum, mas por isso mesmo cativante."

Leia mais em: https://entrecontos.com/2017/04/09/anelisa-sangrava-flores-anderson-henrique-resenha-gustavo-araujo/