segunda-feira, 6 de junho de 2016

Minha homenagem ao centenário de Rubião


Primeiro de junho foi o centenário do Murilo Rubião. Nada mais justo que prestar uma homenagem ao mestre. Vou tentar fugir do óbvio, evitar falar de sua proximidade com Kafka e da importância de seu texto para o realismo mágico nacional. Vou para outro lado de Rubião que chamou minha atenção logo de cara: o humor. Nesse aspecto, vejo-o próximo a Machado por conta da ironia e da acidez ao retratar as relações pessoais. Não à toa, vamos encontrar na epígrafe de “Memórias do contabilista Pedro Inácio” uma referência direta a Brás Cubas: "Marcela amou-me por quinze meses e onze contos de réis". Rubião parte do capítulo XVII de Memórias Póstumas para traçar um perfil da vida amorosa de seu personagem Pedro Inácio.


“1 — Ah! O amor.
O amor de Jandira me custou sessenta mil-réis de bonde, quarenta de correspondência, setenta de aspirina e dois anos de completo alheamento do mundo. Fora cinquenta por cento de meus cabelos e as despesas com os clínicos que, erroneamente, concluíram ser hereditária minha calvície.”

            Pedro Inácio é um personagem obcecado por encontrar o motivo de sua calvície, de sua mania pela contabilidade e de seus fracassos amorosos. O final do conto é espetacular.
            Outro personagem icônico da literatura de Rubião é o protagonista de “O bom amigo Batista”. Não é incomum em nossa sociedade a exaltação da solidez e da fidelidade na amizade entre dois homens. Rubião brinca com esse ideário e produz um texto divertidíssimo: o protagonista passa o conto tentando justificar os atos mais vis de seu melhor amigo.

“Desde a infância procuraram meter-me na cabeça que devia evitar a companhia de João Batista, o melhor amigo que já tive. A começar pelo meu irmão:
— Não vê, José, que Batista está abusando de você? Todos os dias come da sua merenda, copia seus exercícios escolares e ainda banca o valente com os outros meninos, fiado nos seus braços. Todavia, quando os moleques lhe deram aquela surra, nem se abalou para ajudá-lo.
Era uma injustiça. Batista não viera em meu auxílio, como explicou em seguida, porque fora acometido de cãibra justamente no momento em que fui agredido.”

Outros exemplos do humor de Rubião estão no conto “D. José não era”, que gira em torno da identidade e das intenções do protagonista. D. José é acusado de muitas coisas, desde explodir a mulher a dinamite até a falar com duendes. No encerramento do conto, a elucidação do mistério.

“5 — Um dia encontraram-no enforcado. Disseram imediatamente:
— É só fingimento. O nó está pouco apertado.
— Vejam que cara matreira. Está zombando de nós.”

            O mesmo tipo de humor perspicaz é encontrado em contos mais famosos como “O ex-mágico da Taberna Minhota” e “Bárbara”. Como não rir de frases como “Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos” e “Bárbara gostava somente de pedir. Pedia e engordava”. Há quem ache os textos de Rubião um tanto sorumbáticos, mas pra mim ele foi um artista de humor.

sábado, 28 de maio de 2016

Pássaros na boca

Há anos procuro um livro de contos como o Ficções de Borges. Ou uma compilação com o fantástico do Bestiário de Cortázar. Ou uma coletânea como O Pirotécnico Zacarias de Rubião. Alguns chegaram perto, mas chegar perto não é chegar lá. Então descobri Pássaros na Boca, da Samanta Schweblin e encontrei o que estava procurando. Li apenas 7 dos 18 contos, mas sei que não preciso avançar na leitura para dar um depoimento sobre a qualidade do livro. É um trabalho impressionante.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A elegância do ouriço

Não se deve julgar um livro pela capa, certo? E pelo título, vale? Foi o que aconteceu comigo quando trouxe pra casa "A elegância do ouriço". Apostei que um título tão expressivo deveria ter seus méritos. Ele ficou parado em minha estante por quase um ano, quando decidi finalmente iniciar a leitura. Logo nos primeiros capítulos constatei: há tempos deveria ter me aventurado por aquelas páginas. Eis o que "A elegância do ouriço" me disse, praticamente em segredo:


"Aparentemente, de vez em quando os adultos têm tempo de sentar e contemplar o desastre que é a vida deles. Então se lamentam sem compreender e, como moscas que sempre batem na mesma vidraça, se agitam, sofrem, definham, se deprimem e se interrogam sobre a engrenagem que os levou ali aonde não queriam ir. (...) No entanto, é simples entender. O problema é que os filhos acreditam nos discursos dos adultos e, ao se tornar adultos, vingam-se enganando os próprios filhos. A vida tem um sentido que os adultos conhecem, que é a mentira universal em que todo mundo é obrigado a acreditar. Quando na idade adulta, compreende-se que é mentira, é tarde demais. O mistério permanece intacto, mas toda energia disponível foi gasta há tempo em atividades estúpidas. Só resta anestesiar-se, do jeito que der, tentando ocultar o fato de que não se encontra nenhum sentido na própria vida e enganando os próprios filhos para tentar melhor se convencer. Entre as pessoas com quem minha família convive, todas seguiram este mesmo caminho: uma juventude tentando rentabilizar sua inteligência, espremer como um limão o filão dos estudos e garantir uma posição de elite, e depois, uma vida inteira a se indagar com pavor por que essas esperanças desembocaram num vida tão inútil. As pessoas creem perseguir as estrelas e acabam como peixes-vermelhos num aquário. Fico pensando se não seria mais simples ensinar desde o início às crianças que a vida é absurda. Isso privaria a infância de alguns bons momentos, mas faria o adulto ganhar um tempo considerável."


E aí? Mais alguém se sentindo um peixe no aquário, uma mosca batendo sempre na mesma vidraça? 

Ao ler este trecho do livro foi inevitável lembrar da música do Pink Floyd. O contexto é outro, mas a mensagem é praticamente a mesma:

"We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after year
Running over the same old ground
What have we found?
The same old fears"

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati



Terminei hoje a leitura do romance "O Deserto dos Tártaros" do escritor italiano Dino Buzzati. Dizer que o livro é excelente e recomendar a leitura seria simplório, pois acima de tudo, é um texto angustiante que trata de aspectos importantes da vida cotidiana. O texto mexe com o leitor ao abordar os problemas do comodismo que conduz ao hábito e à aceitação de quase tudo que é imposto. A mensagem - se é que deve haver alguma mensagem nos livros - é clara: remete às implicações do tempo e o que fazemos com esta sucessão de anos, dias e horas à nossa disposição. Trata da maneira como lidamos com aquilo que define o que chamamos de vida e tende a explicar o que realmente somos.

No romance um jovem militar é designado para servir em uma fortaleza solitária nas montanhas, um lugar quase esquecido pelo resto do mundo, que em tempos remotos foi local de uma importante defesa contra os tártaros que costumavam chegar pelo deserto que se estendia ao longo do vale. A função do oficial era estar preparado para o dia em que os tártaros voltassem. De cima das muralhas ele examina o deserto imaginando e ansiando pelo dia da batalha, o grande dia em que um fato notável justificará sua vida. Seus olhos não se cansam de vascular o horizonte, mas os tártaros não vêm. O cotidiano transcorre medíocre, o tempo vai passando, mas o soldado não consegue abandonar o forte e mudar sua vida. Continua olhando obstinada e disciplinadamente o deserto, sob o céu silencioso.

Não é um livro sobre a vida militar, mas sobre a vida de todos nós. Confesso que ele me agitou um pouco e me fez considerar várias questões importantes que deixamos de lado por que é simplesmente conveniente manter-se inalterável, mesmo que essa estabilidade não seja lá tão agradável. O romance sacudiu a inércia que me cercava e me levou a refletir sobre a maneira como nos habituamos a tudo. Curiosamente me fez lembrar de uma frase de Crime e Castigo, em que um dos personagens diz ao outro: "O homem é patife. Acostuma-se a tudo."

Tão bom quanto o livro é o prefácio do cineasta brasileiro Ugo Giorgetti, pois traduz toda a essência do livro ao dizer "Ou não é exatamente isso que diz a publicidade, a televisão, enfim, o pensamento médio reinante: seja disciplinado e trabalhador. Não mude sua vida. Trabalhe infatigavelmente que um dia algo maravilhoso vai acontecer. Algo glorioso, que vai justificar sua existência, não uma batalha, claro, mas talvez uma linda mulher inatingível, uma esperada promoção, uma casa cercada de árvores, ou muito dinheiro. Só que isso virá mais adiante. Cada vez mais adiante. Até que um dia nos damos conta que fizemos a aposta errada. Os tártaros não vieram".

Estaríamos à espera dos tártaros?

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Entrevista para Francine Porfirio

Entrevista para o blog de Francine Porfirio

"A fantasia é uma espécie de plasma no qual outras coisas podem ser conduzidas. É praticamente um mar onde outros gêneros podem nadar. As palavras são de Terry Pratchett, autor da série Discworld. Tomei a liberdade de traduzir por conta própria, mas o original está no site de Patrick Rothfuss, outro autor do gênero. O texto trata de muitas coisas, mas as frases que destaquei são emblemáticas. A fantasia não é um fim. Ela é um recurso. Eu gosto de usar exemplos para ilustrar. Vamos a eles: Ensaio sobre a cegueira (Saramago) não é sobre pessoas cegas, mas sobre uma sociedade que tenta se reestruturar diante de uma circunstância nova. Funes, o memorioso (Borges) não é sobre alguém capaz de se lembrar de tudo, é sobre o funcionamento de nossa memória ou, em uma análise mais contemporânea, sobre como o excesso de informação pode ser um fardo. A fantasia é um meio, não um fim."

http://myqueenside.blogspot.com.br/2015/09/entrevista-anderson-henrique-apresenta.html


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

7 coisas que aprendi

Meus pitacos sobre literatura, lá no Escriba Encapuzado

1. Não convide o bloqueio criativo para um café.

O bloqueio criativo é algo recorrente. Uma hora ele chega. Não tem jeito. Mas não é porque ele apareceu, que você precisa convidá-lo para um café. Algumas técnicas podem auxiliar nesses momentos. Uma delas é gritar por socorro. E o melhor é que você não precisa incomodar ninguém pra isso. Vamos a um exemplo: você está escrevendo uma distopia e travou em uma cena. Trinta minutos se passaram e você ainda está no primeiro parágrafo. Pare e dê uma olhada em sua biblioteca. Há alguma obra disponível que se relacione com que você está tentando escrever? Lembre-se: é uma distopia. Será que você não tem um Farenheit 451 na terceira prateleira? Olha ali, sexto livro da esquerda para a direita, bem ao lado de A estrada, não é o 1984 do Orwell? Caminhe lentamente até esses livros. Coloque o teclado de lado e procure por passagens similares à que você está tentando produzir. Isso mesmo: pare de escrever e comece a ler. Você poderá analisar o que esses autores fizeram e como resolveram seus próprios bloqueios (não se engane, estes gênios também sofreram como você). Analise as semelhanças e as diferenças entre essas obras. Veja como estes trechos se relacionam com a sua produção. Compare, pesquise, analise. Ao terminar, você notará a porta aberta e uma xícara de café esfriando sobre a mesa. O bloqueio foi embora e nem se despediu.

2. Rabisque seus livros

Os livros lidos por um escritor não devem passar impunes. Sim, rabisque seus livros. Por mais que possa parecer uma heresia, essa é uma atitude positiva. Faça marcações e brigue com o autor. Reclame dos deslizes e destaque os pontos positivos. Só tome cuidado para não rabiscar um livro emprestado! Se você costuma ler e-books, melhor ainda. Todos os leitores eletrônicos possuem recursos para destacar trechos, catalogar marcações e fazer anotações. Acabou de ler uma passagem foda? Pegue um lápis e sublinhe tudo. Faça uma espécie de guia de referências nas últimas páginas. Depois junte tudo em um lugar só, categorizando. Eu costumo dividir por temas. Noutro dia eu estava precisando de algo que falasse sobre contos e literatura para colocar em um artigo. Veja o que encontrei em minhas anotações: “Um conto não é mais que uma mentira. Uma ilusão. Essa ilusão só funciona se confiarmos nela. Da mesma forma que os truques de um mágico nos impressionam mesmo sabendo que são só truques. O coelho não desapareceu. A mulher não foi serrada em dois. Mas acreditamos. É uma ilusão verdadeira. A literatura, escreveu Platão, é um engano em que quem engana é mais honesto que quem não engana, e quem se deixa enganar é mais inteligente que quem não se deixar enganar.”. Não é um parágrafo fantástico? E sabe o que é melhor? Encontrei essa pérola em poucos minutos, graças à catalogação que faço durante minhas leituras. Ah, o trecho destacado é de Eduardo Halfon e está no livro O boxeador Polaco. A recomendação fica por minha conta. O cara é fera.

3. O primeiro parágrafo é fundamental.

Você provavelmente já ouviu (leu!) a afirmação acima. E ela continua valendo. O primeiro parágrafo ainda é imprescindível. Se você for escritor de formas mais breves como contos ou crônicas, o território é ainda mais restrito: a primeira frase tem que ser um soco no estômago. Faça mágica com poucas palavras. O escritor precisa agarrar o leitor pelas entranhas e soltar apenas quando tiver certeza de que ele não vai embora. Para fazer isso, nada melhor do que começar com impacto. O começo do seu texto é morno e tem apenas descrições? Inverta a ordem. Comece pelo clímax, interrompa-o e depois retorne. Um leitor seduzido de partida dificilmente abandonará a leitura.

4. Faça mais com menos.

Em tempos de redes sociais limitadas a 140 caracteres nós já deveríamos ter aprendido: menos é mais. Pense: é relevante para a história que seu personagem tenha um nome? É necessário detalhar a íris de todos as pessoas que participam da cena? Todo mundo já esteve em uma agência bancária pelo menos uma vez na vida, certo? Tudo bem, nem todo mundo. Mas é imprescindível listar a quantidade de caixas disponíveis, quantas pessoas aguardam na fila e se há anúncios de títulos de capitalização? Talvez não. Faça apenas se for fundamental para a história. A folha em branco é a cozinha do escritor. Temos muitos ingredientes à disposição, mas é preciso selecioná-los bem e dosar. Se a receita exige apenas 200g de açúcar, não vamos despejar na panela os dois quilos que estão no pote, certo?

5. Leia como Sherlock

Esta lição possui uma conectividade direta com a nº2. Um escritor não pode encarar um livro como um leitor comum. O enredo e o desenrolar da trama não são suficientes. O escritor precisa ler como Sherlock, enxergando além do texto e atento aos detalhes. Você deve perceber porque o autor optou por usar a voz ativa no lugar da passiva, saber porque há um flashback e porque livro ocorre em ordem não-cronológica. O escritor deve conhecer os elementos e recursos de um texto e compreendê-los. Às vezes não é tão fácil se desligar da trama para observar tais moléculas. Para esses casos, sugiro a releitura. Leia uma vez como leitor e a segunda vez como escritor. Revelados os mistérios, tramas e reviravoltas, você estará livre para se aventurar pelas entranhas do texto. Sabe aquele conselho que recebemos logo quando crianças que diz obrigação primeiro, diversão depois? Inverta essa premissa. Primeiro leia se divertindo, depois releia pelo ofício.

6. Todo texto cega seu autor

Todo texto deixa seu autor completamente cego após algumas passadas. Isso significa que você não poderá, em hipótese alguma, ser o revisor de seu texto. É obrigatório reler umas duzentas mil vezes antes de passar para as mãos de alguém, mas a cada passada você perderá um percentual da visão até abraçar a total cegueira. É chato depender de outra pessoa, mas não tem jeito. Uma revisão profissional deixará seu texto redondo. Leituras críticas também são altamente recomendadas e leitores-beta são fundamentais.

7. Descarte tudo o que você já leu até aqui

Escrever não é apenas um jogo de imitação. É também é uma arte de ruptura. Descarte, portanto, toda e qualquer regra ou premissa, inclusive as que estão acima. Cada escritor tem seu caminho, sua maneira de fazer as coisas. Não há fórmulas, mas existem padrões. E agora que você sabe que pode desconsiderar tudo o que leu, um aviso: rupturas propositais são bem mais interessantes.

sábado, 30 de maio de 2015

Resenha no site Cantinho da Bruna

"Gostei muito da escrita do Anderson Henrique,ao decorrer de alguns contos,eu notei poesias soltas por aqui e por ali, que dão um toque lindo no livro ao todo (me deu vontade de marcar tudo e.e). O autor alternou entre narrativas masculinas,femininas,primeira e terceira pessoa, o que também ficou legal, e deixou a narrativa mais fluida."

http://www.cantinhodabruna.com.br/2015/05/resenha-anelisa-sangrava-flores-book.html