terça-feira, 18 de abril de 2017

Entrecontos - Anelisa Sangrava Flores


"Anderson Henrique faz uma aposta ousada em Anelisa sangrava flores. Num mercado literário dominado por narrativas fantasiosas que replicam os best-sellers americanos, com seus aliens, duendes, games e mundo paralelos, Anderson procura o dia a dia, o mundano, o simples, o trivial. Não é o oposto, como se poderia pensar, uma espécie de antinomia em relação ao que se vê nas prateleiras de lançamentos de qualquer loja. Na verdade, é algo que vai além e que se destaca exatamente por utilizar elementos do cotidiano para transportar o leitor para um ambiente rico, criativo e essencialmente comum, mas por isso mesmo cativante."

Leia mais em: https://entrecontos.com/2017/04/09/anelisa-sangrava-flores-anderson-henrique-resenha-gustavo-araujo/

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sem açúcar

Resultado de imagem para sem açucar flavia helenaTopei com Sem Açúcar por acaso. Ou quase por acaso. Estava em SP, a caminho de um dos encontros da Balada Literária de 2016 e descobri, ainda no táxi, navegando pela internet, o lançamento do livro. Mandei uma mensagem para autora, que eu ainda não conhecia: olha, sou fulano e tal, também publiquei um livro pela mesma editora, vi que você vai lançamento, fiquei curioso e etc. Cheguei ao Centro Cultural B_arco e depois de assistir à mesa com o Paulo Lins e a Simone Paulino (da Editora Nós), fui conferir o lançamento de Sem Açúcar.

O exemplar autografado por Flávia ficou perdido em minha estante por uns cinco meses depois do lançamento. Mas se demorei um pouco para começar a ler, fechei de uma tacada só, em um voo de 50 minutos da ponte-área. Fiquei muito surpreso com os contos, quase todos curtinhos, variando de duas as três páginas, repletos de lirismo e poesia. A leitura é ágil, uma prosa eficiente encadeada por construções enxutas e repletas de significado. Outra qualidade da obra é buscar o fantástico para retratar as angústias e a dinâmica das relações humanas. São personagens que extravasam o real e buscam no absurdo a resolução para seus conflitos: o mulherengo que precisa dançar com suas amantes antes do ato sexual para não se apaixonar, a jovem que rouba pequenos objetos e o talento de seus respectivos donos, a mulher que come formigas para aplacar a ausência de um amor e a criança capaz de dar vida aos desenhos no papel.

Sem Açúcar traz um microuniverso de temas caros à natureza humana, quase sempre apresentados por protagonistas do sexo feminino: os amores desencontrados, os conflitos nas relações pessoais, as barreiras da velhice e a juventude marcada pela descoberta da identidade. Prosa breve que se lê fácil, mas que agarra nas entranhas. Por fim, uma das características que considero fundamentais no bom conto e que se destaca no livro de Flávia: a força e a precisão no arremate das narrativas.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Sr. Bergier & outras histórias

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Quando comecei a ler Sr. Bergier e outras histórias tive a impressão que o autor se apoiaria na tradição de fantástico maravilhoso para compor seus contos. Enganei-me. Apesar das pinceladas do fantástico latino americano estarem presentes na obra, há certo desprendimento no conjunto, a liberdade de quem se debruça sobre as tradições e dá um pequeno aceno. Um amigo disse certa vez (provavelmente repetindo algo que haviam lhe dito antes): a boa literatura é aquela difícil de classificar. Como todo aforismo, enganos e acertos, mas talvez sirva ao caso de Sr. Bergier, um livro difícil de catalogar. O primeiro conto é um exemplo. Poderia ser apenas mais um texto a resgatar a temática do duplo. Borges fez, Saramago fez e foi repetido inúmeras vezes pelo cinema. Sr. Bergier poderia ser apenas mais um nessa lista interminável, mas o flerte com o sci-fi traz uma base científica para justificar o fenômeno da multiplicação do protagonista. É válido, curioso e intrigante.

Versatilidade talvez seja uma boa palavra. Se Anderson vai ao duplo para compor o primeiro texto, O presente de Evaristo, segundo conto do livro, vai ao terror buscar inspiração. O encerramento trágico remete a Poe e Hitchcock. Os traços estão todos lá: a construção cadenciada, o clima crescente e a tensão mantida até a conclusão. No conto seguinte, O bibliotecário, não é o fantástico quem dá as cartas. Trata-se de uma história melancólica e realista que chama o leitor à reflexão. Há quem acredite que não há função na literatura. Talvez. Que seja então a fagulha a explodir a pólvora acumulada ao longe dos anos.

No conto A máquina, o autor volta ao tema do duplo com os mesmos relances de ficção científica que encontramos no primeiro texto da coletânea e segue nessa pegada nos contos O sonho e The New York Times, narrativa que possui um parágrafo de abertura espetacular. Nesse último, o duplo aparece em versões distintas do mesmo jornal. Em uma delas a bolsa de valores despenca; na outra, está em alta. Uma divergência catastrófica. Não por acaso, o texto é apresentado com uma epígrafe retirada do livro do Apocalipse.

“As catedrais faziam sombra sobre os corpos e carros, que vistos de cima, lembravam um imenso formigueiro. Acima das catedrais homens e máquinas tramavam o mundo de amanhã, embora não se pudesse ouvir das ruas o som de dentes de ferro perfurando papéis, sabia-se que lá, acima dos olhos daqueles que caminhavam sobre o asfalto, homens apregoavam às máquinas o novo evangelho.”

Como que para enjeitar uma obsessão, o autor encerra o livro com um dos contos mais breves e singelos da coletânea. Em Pétala, a sra. Henriqueta, convencida de que foi rejeitada pela morte, passa seus dias a ler Joyce. Um encerramento poético para um livro que resgata as tradições do fantástico e adiciona (ou duplica) algumas de suas variáveis.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Minha homenagem ao centenário de Rubião


Primeiro de junho foi o centenário do Murilo Rubião. Nada mais justo que prestar uma homenagem ao mestre. Vou tentar fugir do óbvio, evitar falar de sua proximidade com Kafka e da importância de seu texto para o realismo mágico nacional. Vou para outro lado de Rubião que chamou minha atenção logo de cara: o humor. Nesse aspecto, vejo-o próximo a Machado por conta da ironia e da acidez ao retratar as relações pessoais. Não à toa, vamos encontrar na epígrafe de “Memórias do contabilista Pedro Inácio” uma referência direta a Brás Cubas: "Marcela amou-me por quinze meses e onze contos de réis". Rubião parte do capítulo XVII de Memórias Póstumas para traçar um perfil da vida amorosa de seu personagem Pedro Inácio.


“1 — Ah! O amor.
O amor de Jandira me custou sessenta mil-réis de bonde, quarenta de correspondência, setenta de aspirina e dois anos de completo alheamento do mundo. Fora cinquenta por cento de meus cabelos e as despesas com os clínicos que, erroneamente, concluíram ser hereditária minha calvície.”

            Pedro Inácio é um personagem obcecado por encontrar o motivo de sua calvície, de sua mania pela contabilidade e de seus fracassos amorosos. O final do conto é espetacular.
            Outro personagem icônico da literatura de Rubião é o protagonista de “O bom amigo Batista”. Não é incomum em nossa sociedade a exaltação da solidez e da fidelidade na amizade entre dois homens. Rubião brinca com esse ideário e produz um texto divertidíssimo: o protagonista passa o conto tentando justificar os atos mais vis de seu melhor amigo.

“Desde a infância procuraram meter-me na cabeça que devia evitar a companhia de João Batista, o melhor amigo que já tive. A começar pelo meu irmão:
— Não vê, José, que Batista está abusando de você? Todos os dias come da sua merenda, copia seus exercícios escolares e ainda banca o valente com os outros meninos, fiado nos seus braços. Todavia, quando os moleques lhe deram aquela surra, nem se abalou para ajudá-lo.
Era uma injustiça. Batista não viera em meu auxílio, como explicou em seguida, porque fora acometido de cãibra justamente no momento em que fui agredido.”

Outros exemplos do humor de Rubião estão no conto “D. José não era”, que gira em torno da identidade e das intenções do protagonista. D. José é acusado de muitas coisas, desde explodir a mulher a dinamite até a falar com duendes. No encerramento do conto, a elucidação do mistério.

“5 — Um dia encontraram-no enforcado. Disseram imediatamente:
— É só fingimento. O nó está pouco apertado.
— Vejam que cara matreira. Está zombando de nós.”

            O mesmo tipo de humor perspicaz é encontrado em contos mais famosos como “O ex-mágico da Taberna Minhota” e “Bárbara”. Como não rir de frases como “Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos” e “Bárbara gostava somente de pedir. Pedia e engordava”. Há quem ache os textos de Rubião um tanto sorumbáticos, mas pra mim ele foi um artista de humor.

sábado, 28 de maio de 2016

Pássaros na boca

Há anos procuro um livro de contos como o Ficções de Borges. Ou uma compilação com o fantástico do Bestiário de Cortázar. Ou uma coletânea como O Pirotécnico Zacarias de Rubião. Alguns chegaram perto, mas chegar perto não é chegar lá. Então descobri Pássaros na Boca, da Samanta Schweblin e encontrei o que estava procurando. Li apenas 7 dos 18 contos, mas sei que não preciso avançar na leitura para dar um depoimento sobre a qualidade do livro. É um trabalho impressionante.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A elegância do ouriço

Não se deve julgar um livro pela capa, certo? E pelo título, vale? Foi o que aconteceu comigo quando trouxe pra casa "A elegância do ouriço". Apostei que um título tão expressivo deveria ter seus méritos. Ele ficou parado em minha estante por quase um ano, quando decidi finalmente iniciar a leitura. Logo nos primeiros capítulos constatei: há tempos deveria ter me aventurado por aquelas páginas. Eis o que "A elegância do ouriço" me disse, praticamente em segredo:


"Aparentemente, de vez em quando os adultos têm tempo de sentar e contemplar o desastre que é a vida deles. Então se lamentam sem compreender e, como moscas que sempre batem na mesma vidraça, se agitam, sofrem, definham, se deprimem e se interrogam sobre a engrenagem que os levou ali aonde não queriam ir. (...) No entanto, é simples entender. O problema é que os filhos acreditam nos discursos dos adultos e, ao se tornar adultos, vingam-se enganando os próprios filhos. A vida tem um sentido que os adultos conhecem, que é a mentira universal em que todo mundo é obrigado a acreditar. Quando na idade adulta, compreende-se que é mentira, é tarde demais. O mistério permanece intacto, mas toda energia disponível foi gasta há tempo em atividades estúpidas. Só resta anestesiar-se, do jeito que der, tentando ocultar o fato de que não se encontra nenhum sentido na própria vida e enganando os próprios filhos para tentar melhor se convencer. Entre as pessoas com quem minha família convive, todas seguiram este mesmo caminho: uma juventude tentando rentabilizar sua inteligência, espremer como um limão o filão dos estudos e garantir uma posição de elite, e depois, uma vida inteira a se indagar com pavor por que essas esperanças desembocaram num vida tão inútil. As pessoas creem perseguir as estrelas e acabam como peixes-vermelhos num aquário. Fico pensando se não seria mais simples ensinar desde o início às crianças que a vida é absurda. Isso privaria a infância de alguns bons momentos, mas faria o adulto ganhar um tempo considerável."


E aí? Mais alguém se sentindo um peixe no aquário, uma mosca batendo sempre na mesma vidraça? 

Ao ler este trecho do livro foi inevitável lembrar da música do Pink Floyd. O contexto é outro, mas a mensagem é praticamente a mesma:

"We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after year
Running over the same old ground
What have we found?
The same old fears"