quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Rakushisha - Resenha

Rakushisha - Solidão e poesia em um mundo aquarelável

"Para andar, basta colocar um pé depois do outro. Um pé depois do outro. Não é complicado. Não é difícil. Dá para ter em mente pequenas metas: primeiro só a esquina. Aquele sinal com a faixa de pedestres e o homem esperando para atravessar com um guarda-chuva transparente e um cachorro de capa amarela."

Para escrever também é preciso muito pouco. Basta uma palavra após a outra, organizar os parágrafos, acertar a pontuação; ter em mente pequenas metas: primeiro um esboço, algumas idéias centrais, uma introdução. Aparentemente, não é difícil, mas essa simplicidade é ardilosa e esconde o equívoco da precipitação. Escrever é tarefa árdua e labiríntica, porém, em Rakushisha, Adriana Lisboa parece provar o contrário. Construída com uma escrita sutil, a narrativa flui espontaneamente, como se todas as palavras possuíssem entre si um elo franco e natural, o que cria essa a impressão de que o texto vem fácil e sem sacrifícios. 

Permeado por uma sensação de calmaria, o romance está imerso numa atmosfera de placidez que, inevitavelmente - e talvez, propositalmente - remete aos ensinamentos comuns às tradições orientais onde o livro encontra apoio. Prosa poética alguns diriam ao vestirem o lugar-comum; um texto cadenciado, leve, que prefere o não-dito, que exalta o tênue e flerta com a minúcia. Em oposição à leveza constante, o texto abriga, também, uma sugestiva sensação de incômodo, que se revela aos poucos e encerra o prenúncio de um desastre. 

Cada pessoa é um ponto formado pelo contato de um finíssimo pincel sobre a superfície da existência. Conforme se movimentam, tais pontos deixam atrás de si o traçado de sua passagem. Há aqueles que fazem diariamente o mesmo caminho: levantam cedo, saem para o trabalho e retornam algum tempo depois. Agem assim constantemente, marcando em suas trajetórias um traço costumeiro. Outros são mais errantes e delineiam vestígios irregulares. Com uma variedade tão grande de pequenos pontos vagando aleatoriamente sobre uma mesma folha, é inevitável que se encontrem em dado momento, que cruzem os caminhos, que parem em lugares próximos e que, algumas vezes, se sobreponham. Nesse momento misturam-se as tintas, trocam-se as colorações, surgem e desaparecem particularidades. Os protagonistas de Rakushisha são esses pontos de contato com o mundo, vagando incessantemente, deixando e levando consigo as experiências do existir. Haruki é encarregado das ilustrações da primeira edição brasileira do Diário de Bashô, poeta Japonês, um dos cânones do Haicai. Ao sair do metrô, onde lia o livro durante a viagem até botafogo, é interrogado por uma mulher: "Isso aí que você lia é japonês ou chinês?". A curiosidade de Celina serve de gatilho ao flerte. Eles conversam, trocam informações pessoais e permitem uma aproximação. Celina descobre que Haruki está de viagem marcada para o Japão, onde buscará inspiração para o projeto. Do impulso nasce um convite e eles embarcam juntos para uma terra desconhecida por ambos. Misturam-se as tintas, combina-se a existência. 

O romance trata de muitas coisas, mas opta sempre pelo detalhe. Não há nenhum grande mote, nenhuma grande trama. É o enredo do comum, dos pormenores da vida, das transformações e proporções sob óticas pessoais; é sobre a tendência natural de se menosprezar ou exagerar o que convém. Em alguns trechos, trata das pequenas imposições sociais, como a sensação de estranhamento que aflige Haruki, descendente de japoneses, que não fala o idioma dos pais, e que desconhece a cultura nipônica; ou da obrigatoriedade em convidar Celina para um café por caber ainda ao homem a iniciativa na investida amorosa. 

Rakushisha é um livro fino, de escrita elegante e tão bem cuidado quanto a caligrafia de um ideograma japonês. Os haicais são inseridos no texto com exatidão e adequados ao contexto narrativo. Outro ponto forte são os trechos destacados do Diário de Bashô, que adicionam atributos e elementos essenciais à história. Está tudo lá: a solidão, as barreiras da língua, as decisões necessárias e as colisões do cotidiano. O texto, além de uma obra de qualidade inquestionável, é uma belíssima homenagem às tradições nipônicas. 

Esta resenha foi publicada originalmente no site da autora: 

2 comentários:

  1. Anderson, eu me interessei muito pelo livro. Tenho estado numa onda de literatura japonesa e tudo o que envolve sua cultura (tudo isso começou por causa do Haruki Murakami, você já leu algo dele?). Vou procurar este livro pra comprar hoje à tarde.
    Obrigada pela dica!
    www.literasutra.com

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  2. O livro da Adriana é muito legal, mas parece não ter nada a ver com o Murakami (comecei o 1Q84 há alguns dias, mas ainda estou no terceiro capítulo). A levada do Rakushisha é bem sutil, uma prosa poética muito boa de se ler. Eu recomendo.

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