quinta-feira, 13 de julho de 2017

Pretérito Imperfeito – Gustavo Araujo

Em uma entrevista para o jornal El País em 2015, Harold Bloom foi categórico: não há nada de radicalmente novo na literatura. Não é uma afirmação surpreendente, considerando o autor da citação, mas será verdade? Então tudo já foi feito e só resta a repetição? Nada além de Prost, Kafka ou Beckett, só para citar autores admirados por Bloom?

Eu não sabia o que esperar quando peguei o livro de Gustavo Araujo para ler. Conheço o autor através do Entrecontos, site para escritores e leitores que o ele administra. Eu havia acabado de lançar meu segundo livro e já estava interessado em ler um trabalho maior do Gustavo há algum tempo, motivado pela qualidade dos contos dele que li. Fiz o que muitos escritores fazem: perguntei se ele não gostaria de fazer uma permuta. Eu enviaria um exemplar de Chame Como Quiser e ele me encaminharia uma cópia de Pretérito Imperfeito. É uma maneira de fazer o trabalho circular e de apreciar o que nossos contemporâneos estão produzindo. Além de “economizar” uma grana.

Recebi o livro quase uma semana depois do trato. Comecei a leitura no saguão do aeroporto a caminho de São Paulo, voo cancelado e remarcado para mais de uma hora depois do horário original. Tirando o prólogo, que achei de uma beleza cativante, as primeiras páginas me fizeram ter a sensação de estar pisando em terreno conhecido. De fato, o livro de Gustavo tem aquela pegada ágil que força o leitor a virar uma página atrás da outra. Os elementos estão bem encaixados, os personagens são carismáticos e trama vai ganhando corpo conforme a progressão. Li umas 60 páginas até chamarem para o voo. Tão distraído que estava com a narrativa, nem vi que a Fernanda Lima sentada ao meu lado (só fui perceber quando algumas pessoas vieram tirar fotos com ela).

Conhecemos o protagonista no primeiro capítulo, um jovem de 13 anos que tem dificuldades com a leitura. O livro parte justamente do dia em que ele pretende dar um novo rumo à sua relação com a leitura. A noite anterior em frente ao livro seria sua garantia. Leria o trecho escolhido pela professora de maneira fluente e sem gaguejar. Ele começa bem, mas um de seus colegas atrapalha (intencionalmente) sua leitura e tira Toninho do rumo. A conclusão é desastrosa. No capítulo seguinte, o livro se utiliza do formato epistolar, uma carta de Cecília para uma amiga chamada Carol. Cecília também tem 13 anos e é mostrada como uma adolescente interessada pelos livros e pela música. Há também uma pincelada de sua relação com o pai na primeira carta. O livro segue alternando entre Toninho e de Cecília, esta última sempre através das cartas que ela escreve para a amiga Carol. Conhecemos a vida simples do Toninho, seu interesse pelos pássaros, a perda da mãe e o relacionamento distante que tem com o pai. Do lado de Cecília, um mistério: a menina desconfia que algo perigoso ou estranho está acontecendo com seu pai.

O livro de Gustavo é, de fato, um romance de formação, contemporâneo na linguagem e versátil por se apoiar em mais de uma estrutura narrativa durante suas 280 páginas. Há espaço até para a inserção de um conto no meio do livro, fruto da imaginação de Cecília, que tem desejo de ser escritora. É um conto singelo, que faz a trama girar e não está ali gratuitamente. Há uma conexão justíssima do texto com a relação entre Cecília e Toninho. Há também um pano de fundo histórico, uma visita à época da ditadura militar e suas figuras históricas que tem interferência direta na vida dos adolescentes. Tais trechos trazem as partes mais tensas do livro, quando o romance toma ares de suspense e agarra o leitor por páginas e páginas.

Nada no livro de Gustavo é por acaso. No fim, todas as peças se encaixam com convicção. Há espaço até mesmo para uma intervenção do fantástico na trama. Ler Pretérito Imperfeito foi como voltar a um local importante da infância, um terreno conhecido que traz algo novo porque se trata de uma visita feita anos depois. O tempo é implacável: tudo é familiar, mas a configuração já não é mais a mesma. Pretérito Imperfeito junta com maestria muito do que já foi feito: os personagens infantis cativantes, as subtramas, o contexto político, a tensão da resolução de um mistério e as relações familiares. Tudo revisitado, reformulado e com novas tintas. Voltamos então a Harold Bloom. Eu me diverti e me emocionei com Pretérito Imperfeito de uma maneira que não acontecia com muitos livros supostamente experimentais. “Não há nada radicalmente novo na literatura”. Talvez não seja necessário. Ou, pelo menos, obrigatório.

Nenhum comentário:

Postar um comentário